"Mai lírol piz óve révem."

Achei-me sentada na mesa de bar aquela noite, meio tonta, pensando e repensando em todas as circunstâncias que transformaram minha história de amor em quase nada. Circunstâncias estas, que eram as mesmas justificáveis de tantos copos (vazios) de gim que me rodeavam, ali . Ébria vida!
Refletia acerca das fórmulas que deram errado até mesmo naquele nosso amor dado como tão certo. E, lembrei-me, da ocasião na qual minha mãe dissertava sobre um caso triste de abuso sexual de menores, abusados estes pelo próprio pai. Mamãe dizia: "Nestes casos é difícil para a mulher aceitar que seu cônjuge tenha feito tal "coisa", após anos de entrega sentimental..." - entrega sentimental - instantaneamente questionei-me: Há como medir o quanto me entreguei?
Conclui que nada disto importava, afinal. Adorável psicose esta minha vivida: sentimentos de pena mui individuais, porém oriundos de uma certeza: alguém no mundo, neste momento, passa pelo mesmo. Foi então que decidi dar uma trégua - iria para casa naquele instante e queimaria todos os vestígios d'amor que encontrasse - fim.
Ao chegar em casa, dirigi-me sem hesitação á gaveta, onde enclausurada, minha caixa de ex-esperançosas memórias gritava clamando por liberdade. Apanhei a caixa, as rosas, roupa íntima utilizada, além da própria aliança. Rapidamente estava á caminho de meu refúgio - um pequeno e esverdeado campinho, estrategicamente localizado como meio da rotatória que liga as avenidas Treze de Maio e Presidente Kennedy, com a avenida Maria de Jesus Condeixa. Lá, eu costumada correr, todos os dias.
Meus pés tocavam a grama verde, recém cortada, afiada. Ao redor, o barulho dos carros que passavam em volta da rotatória, buzinando, apenas compunha o cenário. Eu, memórias reunidas e uma caixinha de fósforo habitávamos, impassíveis. Caminhava quieta, até que avistei um agrupado de minúsculos coqueiros. Sentei-me abaixo deles enquanto relia palavras que ele dantes me escrevera. Formigas picavam-me, tudo bem. Deparei-me com estes versos: "Quando todas as luzes estiverem apagadas e nada mais estiver ao seu redor lembre-se: Eu estou aqui, e nenhum mal lhe sucederá." Lia a oração, em lágrimas, e apesar de lunática, fui insensível ao não constatar a presença da Lua, que me observava, compadecida...
Eu acendia o palito de fósforo raspando-o na caixinha, o que trazia á tona a chama acesa, (virgem sedenta de fogo) que por sua vez, executava a função de lutar contra o ar úmido da atmosfera da madrugada, transformando assim, em cinzas, o que de tão ultrapassado já era cinza, talvez. O firmamento horrível, parecia um abismo azul e escuro, onde logo abaixo a pequena fogueira trepidava, alimentando-se voraz de cartas de amor, rosas e afins. Subia espessa fumaça negra diretamente em meu rosto pálido de dor, e o cheiro que exalava, golpeava meu ser definitivamente. Cada fio de cabelo, pelo, escabelo, recebia naquele momento a mórbita mensagem de morte que a língua de fogo prostada á minha frente, transmitia. Morreu na noite estrelada, queimado, agonizante... Um amor.