Vou lhes contar a história dum remendo, e também da dúvida cruelíssima vivida por uma jovem, referente ao ato ou não de remendá-lo.
Era uma garota
Que despertava de todos atenção:
"Ela sabia cada vez mais"*
Repetiam acerca dela...
A repetição era tanta e tamanha
Que a garota se convenceu
De que realmente,
Sabia cada vez mais.
Então ela decidiu CORRER
Por prados livres e verdíssimos e recém molhados de orvalho,
Prados estes recheados de perigos,
(perigos são chances de morte).
Enquanto corria afobada
Presenciava vícios e virtudes inesperadas
E ela remoçava, vencia, embelezava, incomodava...
Tanto, que tornou-se insensível
Não sentia.
De demasiado correr enfim CAIU
Oh! O rasgo foi tão grande
Que precisava de remendo
E de tal cousa nossa garota se deu conta...
Iniciou-se então a dúvida, sobre o ato de remendar-se
E mui refletindo, ela refletia:
"- Á todos que amei, é possível reamar?
Tanta estupidez
Dita e feita
Por mim e por eles, (para eles)
Tudo o que entreguei
Por Deus, ainda possui valia?
Das saudades que tenho
Remendar (um remendo) arrevelia???"
Observe leitor, como tal garotinha sofria
Coitada, coitadinha
Mas não te compadeças
Quando ela correu
Sabia do perigo,
Pois trazia dentro de si
A marca do livre arbítrio.
Tatuado em seu pulso estava
O brasão de sua escolha
Irrevogável.
Porém, outra vez a garorota tomou siso,
E mui refletindo, ela refletia:
"Ora, em mim mesma devo confiar,
Minhas virtudes atenuar,
Meus vícios amenizar,
Tudo posso!
Não preciso remendar!
Remendos transparecem
Que algo se rasgou
Que tudo se partiu...
Remendar é uma rélis tentativa dada ao erro.
Afinal remendo que muito aparece,
Denota a inabilidade de quem o remendou.
E inábil não sou!"
Céus, que dúvida temos...
Aquela que sabia cada vez mais não soube de nada.
E agora leitor?
O que passou-se com ela,
Remendar, não remendou?
E a garota compadecia
Impotente.
Costureiras fazem parecer tão simples
O ato de remendar:
Remendam calças, trouxas, panos e tecidos,
Todos os dias.
Mas remendar vidas
Não é bem assim
Não se pode utilizar
Apenas máquinas de costurar.
E a garota assim ficou...
Anos implorou
Pela solução de sua dúvida
E diz a história
Que alguém, algum dia e em algum lugar
Lhe dará fiel resposta,
O alívio (exuberante) reinará sob ela:
Enfim ela saberá.
E poderá merecidamente alcançar
Seu final feliz.
Caro leitor,
Um conselho que lhe dou,
Que serve também de moral a esta imoral história:
Pense muito bem antes de se libertar
Passarinho livre tem de saber como voar!
Não queras tu acabar como a garota
Vivendo a triste e cruel dúvida por toda a sua vida:
Remendo/Remendar?
* Extraído do conto "Menina", de Ivan Ângelo.